Quando olhamos para o presente da pesca artesanal de Cabo Verde, nos deparamos com algo notável. O país possui dezenas de comunidades artesanais de pesca espalhadas por toda a extensão habitada do arquipélago que com suas técnicas sustentáveis de captura garantem trabalho, emprego, renda e dignidade para amplas parcelas das camadas populares das ilhas.
Diferentemente dos ciclos irregulares da agricultura que se encontra submetida aos longos períodos de seca que atingem o arquipélago, nas áreas de pesca sempre é possível testemunhar pescadores e peixeiras transformando o fruto de seu trabalho em fartura e dignidade.
Explorando os grandes peixes migratórios que circulam pelos mares do país por meio da arte da linha de mão e de seus pequenos botes de madeira, pescadores e peixeiras são respeitados e tidos como referências morais de suas comunidades de ofício.
Considerando o seu alcance territorial e a sua alta penetração no tecido social das ilhas, apesar da exígua documentação histórica disponível sobre o passado da atividade, não é possível ignorar sua antiguidade em face do processo de ocupação humana do arquipélago desencadeado pelos portugueses a partir de 1460.
Outra dimensão social importante da atividade pesqueira local é a sua insubordinação em relação às inúmeras tentativas estatais de moldá-la a formas supostamente mais adequadas de funcionamento. Ao resistirem contra as tentativas de desmantelamento de sua cultura marítima, essas comunidades tem sido rotuladas de atrasadas ou lidas como se tivessem fadadas a se reduzirem a meras atividades de subsistência.
Ocorre que esta não é, simplesmente, uma luta por rótulos mais ou menos adequados às comunidades pesqueiras. Trata-se da parte visível de um conflito socioambiental de grandes proporções que opõe o estado caboverdiano e grandes players internacionais interessados na exploração do pescado da região, às dezenas de comunidades artesanais de pesca existentes no país.
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