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Pesca artesanal e turismo em Cabo Verde

  • Foto do escritor: João Paulo Araújo
    João Paulo Araújo
  • 27 de jan.
  • 2 min de leitura

Atualizado: há 6 dias


Quem já teve a oportunidade de estar na ilha de Santiago, certamente já passou pela famosa praia da Gamboa. Trata-se de uma praia situada no coração da capital que serviu de palco para momentos importantes da história de ocupação humana do arquipélago encontrado inabitado pelos portugueses em 1460.

Dentre os muitos usos que já se fizeram dessa praia situada entre o bairro Brasil e o Plateau, cabe destacar que a Gamboa já foi, durante um tempo considerável, um território pesqueiro bastante frequentado pelos pescadores artesanais da capital.

Para os interessados no assunto, indico a leitura da matéria do jornal Tribuna de 17 de novembro de 1988 que se encontra disponível na seção de documentos históricos deste Portal.

A reportagem, assinada pela jornalista Filomena Silva, começa com o curioso trecho que segue transcrito: "O areal da Gamboa é amplo, a situação esplêndida, a paisagem muito bela. Mas é praia de pescadores e não de turismo."

Na altura, a julgar pelo texto de Filomena, a Gamboa parecia se configurar como uma espécie de hotspot da pesca local, para onde convergiam, cotidianamente, dezenas de pescadores artesanais e peixeiras que compartilhavam a praia com os barcos da fábrica de conserva de pescado que também existia por ali no final da década de 1980.

Com o passar dos anos, porém, a capital cresceu, se urbanizou, a fábrica de conservas teve suas atividades encerradas e boa parte da atividade artesanal pesqueira desenvolvida ali fora transferida para o cais de pesca da cidade da Praia.

Apesar dessas mudanças de ordem estrutural, me lembro que na primeira vez que estive em Cabo Verde, em 2015, ainda havia muitos barcos no areal da praia da Gamboa. Muitos pescadores da Achada Grande e do bairro Brasil ainda utilizavam largamente a faixa de areia da Gamboa para os afazeres da pesca.

De lá pra cá, porém, a história desse espaço nunca mais foi a mesma, porque foi também por volta de 2015 que o governo de Cabo Verde concessionou toda a área da Gamboa para a construção de um hotel-cassino de dimensões faraônicas e toda essa área fora remodelada, sobrando para os pescadores apenas uma pequena faixa de areia entre a água e uma quadra de futebol que fora erguida ao lado de uma plantação de coqueiros que tomou praticamente todo o território pesqueiro.

Até onde me consta, a comunidade pesqueira da capital nunca fora devidamente ouvida sobre esse processo, tratando-se, esse caso, de um exemplo bastante emblemático de como a indústria do turismo age em Cabo Verde e quem são os excluídos que ela produz.

Se na época da reportagem de Filomena Silva, ela dizia que essa era uma autêntica praia de pescadores, nos dias de hoje a equação se invertou, tendo as atividades do turismo avançado por praticamente toda a extensão desse emblemático território pesqueiro da capital.





 
 
 

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